segunda-feira, 14 de março de 2011

Resenha: "A Trégua", Mario Benedetti


Sabe aquele livro que você lê e sabe, ainda durante a leitura, que não será a mesma pessoa depois de ter lido aquilo? "A Trégua" foi um desses livros, um dos que chamo "livros da minha vida".

Pra já começar com o coração dando aquela parada centesimal em que é como se pulasse uma batida, a primeira data do diário de Martín é a data do meu aniversário. Eu já comecei então o livro com uma certa boa vontade, um querer-gostar. Ainda nas 10 primeiras páginas, e estando já quase conquistada pela linguagem de Benedetti, ele escreve:"Há uma espécie de reflexo automático nisso de falar da morte e em seguida olhar o relógio." Aí ele me ganhou de vez. Vivi tantas vezes essa situação, esse desconforto provocado ao se falar de morte, vi tantas pessoas olharem o relógio, ouvirem o telefone, lembrarem-se de um compromisso inadiável para o qual já estão atrasadas. É ou isso, ou o silêncio. E é assim mesmo, para a morte não há palavras. As que são usadas nunca são suficientes, por mais que se tente. E Benedetti tratou disso com uma sensibilidade única. Esse falar da morte sem tentar esgotá-la, falar também da vida e do amor sempre deixando presente uma dimensão em que sabe-se que as palavras não esgotam o que se vive.

"Comemos. Conversamos. Rimos. Fizemos amor. Tudo correu tão bem que não vale a pena escrevê-lo."
"Tudo passou tão rápido, foi tão natural, foi tão feliz, que não pude tomar nem uma só anotação mental. Quando se está no próprio foco da vida é impossível refletir."

E ainda assim, ainda dizendo isso, Benedetti escreve através de Martín cenas belíssimas. Declarações que renovam a crença no amor, momentos rotineiros que deixam gosto de felicidade, e uma simples palavra que derruba todo o castelo.
Tenho uma certa tendência à melancolia, essa coisa meio triste, meio bela, que dói mas vale a pena, e "A Trégua" é assim. Doído, triste, lindo, vivo.

"Nunca havia sido tão plenamente feliz como nesse momento, mas tinha a sensação dilacerante de que nunca mais voltaria a sê-lo, ao menos nesse grau, com essa intensidade. O cume é assim, claro que é assim. Além disso, estou certo de que o cume dura apenas um segundo, um breve segundo, uma centelha instantânea e sem direito à prorrogação."

E o que restou do livro em mim foi isso: essa centelha que acende, consome-se e desaparece no tempo de um instante, esse breve momento de trégua que dura apenas um segundo no relógio mas que continua acontecendo em nós até nosso apagamento final.

5 comentários:

Andressa disse...

Adoro ler as coisas que você escreve. Meu sonho é ter uma livraria, podemos abrir uma juntas, se quiser.

"Comemos. Conversamos. Rimos. Fizemos amor. Tudo correu tão bem que não vale a pena escrevê-lo."

A felicidade nem produz literatura, apenas vida.

Sabe aquele livro que você lê e sabe, ainda durante a leitura, que não será a mesma pessoa depois de ter lido aquilo? "Ulysses" foi um desses livros, um dos que chamo "livros da minha vida".

:)

Beijo, querida.
Boa segunda pra você e pro Garfield.

Alicia disse...

Claro que com uma resenha dessas vou ter que ler este livro, né?

E que belo comentário da Andressa após um belo post teu.

Carina B. disse...

Andressa e Alicia: muito obrigada pelos comentários, queridas. :)

Andressa: Adoraria ter uma livraria também, quem sabe, né?

Alicia: Leia mesmo, é lindo demais. E tem versão de bolso dele, leve e baratinha e a tradução é super boa.

Beijos pras duas!

Tatiana Kielberman disse...

Olá Carina!!!

Adorei a resenha do livro... deu muita vontade de ler!

Obrigada por nos trazê-lo aqui!

Beijos!

Denison Mendes disse...

querida, venho aqui, primeiro para te agradecer. segundo para te dizer que adoro teus escritos, que acompanho pelo twitter (agora por aqui também). por final, te dizer que benedetti é genial e junto com juan carlos onetti (a rima não é obrigatória) são dois grandes escritores universais.
beijos
denison

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